A Casa do Zezinho

Nota de repúdio e indignação

A Casa do Zezinho está de luto. A ONG Casa do Zezinho mostra seu profundo repúdio e indignação. Um dos seus filhos queridos, o jovem Alberto Milfont Jr, (23), foi barbaramente assassinado dentro das Casas Bahia na Estrada de Itapecerica por um segurança terceirizado, que trabalha nessa instituição, na segunda feira por volta das 16 horas. O segurança, em sua defesa, alega que agiu assim porque simplesmente o jovem estava mal vestido.

O jovem Alberto, mal vestido, morre com a nota fiscal, com comprovante de compra nas mãos.

Enquanto aguardava dentro da loja, “roupa de trabalhador”, sua esposa Darilene (22) voltava do caixa aonde fora pagar a prestação da compra de um colchão. Foi abordado pelo assassino, terno preto. Depois de um bate boca ligeiro o segurança saca da arma e atira à queima roupa. O jovem tomba sem vida.

Suas últimas palavras: Sou cliente, não sou ladrão!”. A partir daí se calou. Calou da mesma forma como estamos calados, sufocados há 400 anos. Que grande equívoco este país!

Mal vestido, roupa de trabalho, é um sinal verde para o braço armado da sociedade, o assassino pago para atirar. Alberto deixa esposa e um filho de 5 meses. Alberto deixa morta a remota esperança de milhares de jovens brasileiros. Estudar pra que? Trabalhar pra que? Ser honesto pra que? Brasileiros alfabetizados, respondam honestamente essa pergunta!

O menino brincalhão, comprido e de pernas finas entrou para a Casa do Zezinho aos 10 anos. Sua turma do Parque Santo Antônio já estava todinha ali. Vai ser muito legal, ali vamos nos divertir para valer. O jovem deixa excelentes recordações em toda nossa comunidade, onde permaneceu como um membro muito querido até 2003.
Estava de casamento marcado com a jovem Darilene, com quem tinha um filho de apenas 5 meses.

Suspeita e pobreza sempre juntas na nossa história.

Nenhum (a) jovem “mal vestido” (leia-se moreno, pardo) da periferia ousa sequer pisar num shopping de grife da cidade sem levantar as mais alarmantes suspeitas. Nenhuma placa, nenhum sinal explcita essa indesejabilidade, como faziam com os negros os norte-americanos. Diferentemente dos americanos, aqui o jovem da periferia já traz gravada na carne, na alma, essa interjeição.

Nenhuma revolta, nenhuma vingança organizada. Nada que a sociedade deva se preocupar. Apenas o destempero de um segurança idiotizado, uma peça para reposição. No Cemitério São Luiz o murmúrio surdo da mãe e da jovem esposa.

Dentes cravados, os jovens cabisbaixos que acompanham o enterro trazem o sangue nos olhos. – O mano Alberto subiu!

Com muita raiva seguimos com eles, solidários, para tentar preservar essa auto estima
tão covardemente destruída desde o seu nascimento nas favelas.

A vitória da morte exercida com eficiência certeira Buy Cialis Online Pharmacy No Prescription Needed desde sempre no país pelo braço armado contratado pela sociedade dominante e pelos seus comparsas que dominam toda a estrutura de poder do estado.

Pras Casas Bahia deixamos como lembrança o carnê saldado com a honra e a dignidade de um jovem trabalhador.

Adeus mano Alberto!

Fonte: post do blog do Marcelo Tas

1 thought on “A Casa do Zezinho

  1. Sou da linha de frente na insana luta para convencer estes jovens a acreditarem na sua resiliência, de que se incluir nesta sociedade vale a pena e do outro lado convencer a sociedade de que estes são humanos, gente. Por acaso comecei a ler hoje o livro do Loiic Wacquant, ” As visões do gueto” e quando abro o e-mail me deparo com a triste ilustração daquilo que fala o sociólogo. Quando entro no blog me deparo com a série de notícias abaixo e a direita como as autoridades constituídas tratam a questão. Fazem da lei gato e sapato para seguir perenizando a eterna apropriação dos recursos e dos valores coletivos conforme seus interesses. Para nós que atuamos nestas fronteiras é um duro golpe e nos fazer pensar em nossa ética ao convencer estes meninos e meninas a crerem nessa tal inclusão. A este outro lado da sociedade, que com os caraminguas suados de cada pessoa incluída, financiam sua proteção e defesa contra “perigosos pobres”, jovens e negros. Esta é a ética deles e de seu Deus Mercado: Servimos apenas para sustentar suas vidas opulentas, pois sob suspeita, somos apenas corpos descartáveis.
    Solidariamente me coloco de luto por este menino, sua família e a Casa do Zezinho. Mas em nome da teimosa e corajosa fundadora desta monumental e radical demonstração de crença no direito à humanidade destes meninos e meninas que é a Casa do Zezinho, chacoalho as dúvidas que abalam minhas crenças e digo: sigamos em frente, desistir jamais!
    José Queiroz

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