A doação sob risco de morte

Alguns anos atrás, o Dr. Russell P. Shedd foi um dos preletores em uma grande conferência para pastores em Fortaleza – CE, organizada pela SEPAL, cujo tema era “Crescimento de Igrejas”. Iniciou sua fala assim “Havia, no Rio de Janeiro, um pastor (Robert McAlister) cujo grande sonho era construir seu ministério evangelístico através da Televisão. Ele não conseguiu, a não ser, alguns momentos esporádicos em que manteve um pequeno programa de entrevistas em um desses canais que quase ninguém assiste. Entretanto, na igreja que ele pastoreava, dois homens se destacaram como diáconos, um deles chamava-se Edir Macedo e o outro, cunhado do primeiro, R. R. Soares”.

A maioria já sabe, mas para quem não sabe, cada um desses ex-diáconos construiu seu próprio ministério televisivo, a saber, Edir e a Igreja Universal do Reino de Deus e R. R. Soares a Igreja Internacional da Graça de Deus.

Hoje, há um artigo no site de O Estado de São Paulo sobre a Igreja Universal do Reino de Deus onde o articulista descreve, sob o título Igreja Universal agora permite doar o dízimo pelo Facebook, como é possível dizimar através do site da Igreja no Facebook. Ele não tira conclusões atendo-se apenas a descrever o processo com os devidos links, mas batendo os olhos nos comentários, fica claríssima a repercussão do texto, ou seja, todo mundo caindo de pau no “sistema de doações da Universal”.

Quando morei nos Estados Unidos, durante algum tempo, observei um detalhe cultural daquele povo relacionado às doações. Certa vez, uma senhora foi ao supermercado com a filhinha e a menina desapareceu. Ela e o marido apareceram em quase todos os canais de TV aberta fazendo apelos para obter ajuda no sentido de encontrar sua filhinha. Eles nunca falaram em dinheiro, que eu tenha testemunhado, mas dos quatro cantos do país, as pessoas colocaram algum dinheiro em um envelope e enviaram para o casal. Perguntei a várias pessoas lá porque eles faziam isso e a resposta, invariavelmente foi, eles precisarão de dinheiro para encontrar a filha, e isso é o que podemos fazer para ajuda-los. Eles também costumam enviar doações espontâneas e voluntárias para as organizações não governamentais sem fins lucrativos que trabalham em causa religiosas, sociais, educacionais e de saúde, fora que o fazem também aos candidatos que pretendem eleger durante as eleições.

Através do trabalho da igreja, o povo norte-americano incluiu em sua cultura o costume de contribuir. Para as pessoas das igrejas, contribuir é um dogma com bases espiritais. Esse ato de doar tem causado uma das maiores e mais contundente distribuição de renda que se tem notícias. Outros países desenvolvidos fazem o mesmo com os mesmos resultados.

Por razões que desconheço, embora faça algumas suposições, no Brasil, estamos desconstruindo o hábito de doar. Cresci sob influência católica e aprendi com eles a doar a esmola. Esse ato fazia parte da missa. Mais tarde, me converti ao protestantismo e aprendi a dizimar e ofertar, como nas igrejas da América do Norte, um dogma espiritual. Como missionário, fui além do normal, pois tive meu trabalho no campo missionário sustentado por contribuições dos fieis das igrejas. Então recebi a incumbência de fazer o trabalho de angariar recursos através de doações para um ministério que considerava sério e relevante, lá pelos idos da década de oitenta e noventa do século passado.

Uma das minhas suposições para o atual comportamento negativo do povo brasileiro em relação à contribuição foi a atitude do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a esposa, ao supor que o dinheiro circulante em doações seria suficiente para pagar a nossa dívida externa (oitenta bilhões de dólares, à época), graças à infeliz informação que lhe foi fornecida pelo ex-publicitário Alex Pericinoto. Então, em minha opinião, começaram uma campanha de destruição do que denominaram “pilantropia” e saíram à caça das bruxas, religiosos inclusos. Enquanto a D. Rute Cardoso instituía a tal da OSCIPque trocando em miúdos, seria uma forma de ter total controle do “mercado filantrópico”, sem falar no tal do certificado de filantropia, concedido pelo governo, obvio. Entidades, igrejas, associações, etc., tornaram-se vitima desse processo, que seguiu pelos governos subsequentes e ainda continua a todo vapor, solapando cada vez mais a contribuição em nosso meio, salvo engano.

Evidentemente, não compactuo com atitudes antiéticas de quem quer que seja, políticos, padres, pastores, inclusive de igrejas e organizações de cunho social, etc. Por outro lado, acredito que o mercado sempre se ajustará, se deixa-lo andar com liberdade. Não será diferente no caso dessas organizações. Se confiarmos no povo, naturalmente, o que não presta encontrará seu destino sozinho.

O ato de doar precisa ser separado de tudo isso, sob o risco de extinção, em nosso país. Mas quando alguém vincula a doação com alguma organização que já está devidamente satanizada pelo governo e seus partidários, não é o que vemos. Trata-se de manipulação da pior qualidade. Sem falar que tentar manipular ou proibir a doação nas igrejas, estão invadido o direito de liberdade religiosa, algo que define os limites e carrega o peso de sinalizar a liberdade de um povo como um todo. Arrisco dizer que essas pessoas desejam liquidar com a doação, por acreditarem que esse dinheiro fortalece quem recebe, politicamente.

Estou de pleno acordo que as pessoas deixem igrejas com práticas estranhas, sem ética ou até, imorais. Mas a doação salva vidas e, muitas vezes é a única alternativa de milhares de pessoas. Eu mesmo tenho experimentado isso, com meu filho cardiopata congênito, quando não posso arcar com as necessidades de vida e tratamento dele e sou socorrido por doações de igrejas, amigos e parentes.

 

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