Esta Ética Neoliberal

Stephen Kanitz

Um dos desastres destes últimos 10 anos, foi o movimento de Responsabilidade Social da Empresa, encabeçado pelo Instituto Ethos, Oded Grajew, Ricardo Young e outros. Obviamente eram pessoas boas, bem intencionadas.

Com juros altos, recessão e corte de custos, as empresas brasileiras socialmente responsáveis reduziram drasticamente as doações ao terceiro setor.

Isto é a maior prova de que as empresas não estão assumindo responsabilidades sociais como gostariam que nós consumidores acreditássemos.

O que as empresas estão fazendo é criar um projeto social com o mínimo de recursos e o máximo de marketing para poder agradar os formadores de opinião, os jornalistas que vivem perguntando o que as empresas fazem para o social.

As empresas não são bobas, pois sabem que aquelas que de fato assumem responsabilidades sociais poderão um dia ser responsabilizadas se os problemas sociais aumentarem, como já estão aumentando.

As empresas não podem assumir responsabilidades sobre o que não entendem direito. Assumir responsabilidade sobre os produtos que produzem já é difícil, imaginem adotar 500 crianças órfãs e cuidá-las por 18 anos. Nenhuma empresa jamais fará isto, orçamentos são feitos por um ano e olhe lá.

A ideia de que as empresas deveriam cuidar do social foi mais um projeto neoliberal que não deu certo.

A última coisa que uma sociedade precisa é de executivos de multinacionais decidindo quais projetos apoiarem e quais não apoiar. A última coisa que o Brasil precisa é que um empresário e seu diretor de vendas decidam qual projeto social eles vão incentivar.

A última coisa que o Brasil precisa é que executivos e empresários elaborem um código de ética para seus funcionários seguirem.

Ética é seara da religião, da filosofia, da família, não de executivos de sociedades anônimas.

Mas esta visão neoliberal ganhou a parada. Hoje quem dita as verbas e os projetos sociais são os executivos de multinacionais e os empresários nacionais, em parceria com dezenas de ONGs que adoram fazer parceria para atender a nova clientela.

A imprensa estimulou este neoliberalismo social criando dezenas de prêmios para as empresas que seguissem este projeto neoliberal.

A visão antiga cristã de que o social deve ser dirigido pela igreja, pela congregação, pelo indivíduo cristão foi abandonada.

A ideia de que a responsabilidade social é da comunidade, que ela é que deve estabelecer a agenda social e não as empresas, foi jogada no ralo.

Em poucos anos esta nova ética neoliberal conseguiu desorganizar o terceiro setor.

As empresas socialmente responsáveis reduziram suas doações para as entidades que já existem há mais de 400 anos, muito antes desta ética neoliberal.

Empresas agora criam seus institutos para fazer o bem, institutos com a marca de seu produto. Como por exemplo, Instituto Pão de Açúcar, Instituto Natura, e o Instituto Abílio Diniz ou Instituto Antônio Luiz da Cunha Seabra.

Isto porque roubaram funcionários das entidades e criaram projetos fáceis sem muito risco social, como criança e educação e ecologia.

A consequência é que as entidades estão morrendo, no fim de suas reservas financeiras.

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